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Antologia "Ler novos autores - contos escolhidos" 2019 - Conto "O escritor primordial"

Atualizado: 21 de jul. de 2023


Concurso feito pela "Ler - Festival do leitor", em que foram escolhidos doze contos sobre o tema "Ler" para integrarem uma antologia. O resultado é o livro "Ler novos autores - contos escolhidos" (Editora Jaguatirica, 2019), em que participo com o meu conto "O escritor primordial". Boa leitura.


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O escritor primordial


Pela primeira vez, o escritor olhou para o livro que lia com uma gula exponencial. Queria, como nunca, devorá-lo. Tentou iludir-se, dizer que era melhor ler com calma, mas a barriga roncou e soube que, quanto antes terminasse, logo sairia da biblioteca para comer algo. Faltava pouco, no máximo mais uma hora. Queria muito saber o final, o gosto que aquela história tinha. Parou um momento para inalar aquele cheiro, o cheiro do livro, e, enquanto aspirava, sentiu algo primitivo o invadir. Uma lembrança muito distante rondava o seu peito enquanto as páginas iam sendo folheadas e ele via-se despertado de uma realidade, sem saber explicar a satisfação que aquele aroma provocava. Foi então que uma ideia insana passou por sua cabeça, parecendo-lhe tão possível quanto o prazer de cheirar o livro. A princípio, refutou-a olhando para os lados da biblioteca, prestes a fechar. A solidão, no entanto, o encorajou ainda mais. Sua barriga roncou e ele, sucumbindo à ancestralidade do agrupamento de saliva em sua boca, resolveu experimentar o livro. Começou lambendo as orelhas. Notou que elas caíam bem no contato com a língua. Tateando a superfície inusitada, dividia a atenção sensorial do paladar com a audição, preparado para largar o objeto caso qualquer um se aproximasse. Apenas quando pôde relaxar um pouco, concentrando sua atenção no raspar de traço úmido, percebeu o sabor inusitado de uma feijoada. Seu estômago fez um barulho sonoro, talvez em comemoração. Surpreso, partiu sem dó para outros detalhes. Lambeu a capa, que lhe pareceu demasiadamente enjoativa — como aqueles doces em que se coloca de tudo, provocando uma grande insatisfação no fígado. Curioso, arrastou a língua pela lombada até a contracapa. Logo descobriu que aquelas partes não deveriam ser degustadas, ao menos não daquela forma. A lombada era como um pepino, a contracapa tinha gosto de aperitivos variados e a reunião de páginas bem agrupadas quando o livro estava fechado quase o fez vomitar. Quando lambeu as diversas folhas juntas, lembrou da sopa de sua mãe que reunia todos os ingredientes da geladeira no liquidificador, entregando uma pasta sem gosto ou cheiro definido. Apesar de não apreciar o que encontrou, a barriga ainda roncava. Era preciso mastigar algo. Mordiscou, com alguma hesitação, o pedaço da página em que havia parado a leitura. No fim das contas, o livro tinha um final cansativo, não faria tanta falta na biblioteca. Quando o papel preencheu sua boca, notou que a página lida pela metade tinha o gosto de frango bem temperado da sua avó e partiu para outra, reconhecendo nesta uma bela macarronada. Aqueles eram gostos que valiam a pena, que o faziam viajar pela memória e satisfaziam sua barriga vazia. O livro havia se transformado em algo mais. Então, querendo testar outros tomos e novamente não avistando ninguém, rasgou páginas inteiras do primeiro catatau que encontrou em uma estante atrás dele. Em cima do livro, dividiu as páginas do meio em pequenos fragmentos e temperou-as com as páginas iniciais, cheias de sal, pimenta e manjericão. Comeu-as com tanto gosto e prazer estomacal que só ao acabar de limpar a boca notou saber o que se passava no começo de Dom Quixote de la Mancha, aquele livro que nunca havia conseguido ler e que agora devorava com tanta facilidade. Era tão grande e tão demasiado o seu prazer que mesmo cheio sentou-se em um canto e continuou a experimentar o livro. Leu com gosto de salada, carne de panela, estrogonofe, arroz doce e brigadeiro. Aos poucos tudo foi se misturando no bolo estomacal. Só lhe restara o prazer da leitura, sua enorme barriga e o retrogosto que o final do livro deixara. Foi quando ouviu passos e, sem saber o que fazer, tentou correr. No entanto, estava tão pesado que nenhum movimento se concretizou. Aterrorizado, avistou o responsável pela biblioteca rondando o ambiente. O homem aproximou-se dele e o encarou. O escritor sentiu-se tão pequeno em sua culpa que apenas pôde chorar e gritar por perdão. Não sabia o que tinha dado nele, dizia. Tinha mesmo era muita fome, decidiu experimentar o que mais gostava na vida, explicava. Agora mesmo, apesar do tanto que comeu, sentia-se capaz de devorar o mundo, gesticulava. — Deus, quem foi o monstro que fez isso com os livros e ainda os largou aqui? O escritor gritava que ele era o monstro para tentar se fazer escutar. Tentou articular que não havia ali grande pecado, visto que iria repor o Dom Quixote. O bibliotecário, no entanto, continuava procurando o responsável por tal crime quando o escritor tentou levantar as mãos para chamar a atenção e, só então, notou que não tinha mais mãos. Gritou novamente, desta vez de horror. O bibliotecário suspirou sem nada perceber e se pôs a andar para longe da prateleira, levando os dois livros comidos. Em seguida, apagou as luzes e fechou a porta. O escritor, ainda abismado, sentiu-se mais calmo na escuridão. Tentou olhar seu corpo na penumbra e depois começou a apalpá-lo. Estava coberto por escamas e sentia que também não tinha mais pés, mas pequenas varetas que fingiam ser seus antigos membros. Com espanto, notou duas longas antenas na cabeça e três filamentos caudais. Tentou esfregar os olhos, mas não os alcançou. Com o seu corpo dividido em vários segmentos e seus pequenos pés, conseguiu sair do chão até chegar em uma prateleira. Devido ao esforço sentiu-se novamente com uma fome incontrolável. Os livros lhe pareceram ainda mais apetitosos desta vez e ele começou a percorrer as lombadas, escolhendo o melhor prato. Avistou um que sempre quis devorar e escorregou o corpo por entre as páginas. Por fim, comeu mais pela gula de saber o final do que por fome. Olhou para trás e viu os diversos buracos que deixara. Pela segunda vez refletiu sobre as implicações de seus atos, sentindo-se novamente um monstro. Destruíra o livro para futuros leitores. Mas, pensando bem, pequenos furos não impossibilitavam a leitura. Ficou em um impasse moral entre parar de se alimentar e as possibilidades que tinha pela frente. De fato, nunca conseguira terminar um livro inteiro em menos de uma hora. Além do mais, era tão novo e lhe recaia sobre os ombros o fato de nunca ter lido o suficiente, de sempre saber menos, da pilha de leitura ir aumentando cada vez mais. Agora, não teria mais por que trabalhar, se preocupar com a falta de tempo ou as refeições. Neste momento, sentiu-se abençoado. A nenhum outro ser havia sido dada a capacidade de ler tanto. Dispensado de suas responsabilidades, decidiu continuar comendo livros sem culpa, em uma rapidez inigualável. Uma única mordiscada o tornava capaz de entender as quarenta últimas páginas, de modo que pôde experimentar desde os grandes clássicos até os autores estrangeiros e nacionais contemporâneos. Foi conhecendo aquela biblioteca como nunca antes, aproveitando-se de seu pouco uso pelas pessoas para poder se deslocar à vontade, escondido de olhos que pudessem observá-lo ou até mesmo sentenciá-lo. O local tornara-se o seu mundo e após quatro anos conseguira chegar à última obra após passar por 350 mil livros sem jamais ter sido pego. Orgulhava-se disso. Queria ver quem poderia julgá-lo agora ou qual tema não poderia debater, ou ainda qual autor não ficaria aos seus pés. Que inveja não sentiriam seus colegas, sufocados pela rotina, pelo amor à leitura e pelas páginas em branco. Pensando nisso, se havia algo que poderia reclamar era de lhe faltarem páginas em branco e um bom lápis, ainda que sem borracha. O maior leitor do mundo não necessitaria de borracha, tinha certeza. Foi em meio a esses pensamentos quando, de súbito e após tanto conhecimento, voltou a ele a vontade de escrever. Desolado em sua qualidade de leitor e mergulhado em um oceano de criatividade reprimida, o escritor notou que tinha duas opções: a primeira era ler tudo de novo e a segunda era buscar novos livros. Concluiu que tinha muito ainda por vir. O que eram 350 mil livros perto de todos os textos produzidos pela humanidade? Imaginou as possibilidades que o aguardavam, o quanto ainda lhe seria permitido descobrir. Sonhou que encontrava obras proibidas pela igreja, em mosteiros tão antigos quanto a quantidade de livros existentes na biblioteca. Depois, descobriria escritos jamais vistos pela humanidade e desvendaria a localização da Biblioteca de Babel. Acordou animado e mergulhou em uma obra cuja procura era grande na biblioteca. Ficou aguardando enquanto observava a sua pobre existência. Não demorou muito para ser transportado a outro lugar. Sentiu a mudança de ares e a turbulência durante o pouso de Capitães da areia na mesa. Quando tudo ficou escuro, atreveu-se a sair das páginas e dar uma espiada no seu novo lar, repleto de livros com títulos que nunca havia visto. Chegou à conclusão de que poderia fazer aquilo para sempre, sendo transportado de casa em casa, com o devido cuidado. No entanto, parou diante de uma tela em branco que o fez ter vontade de ficar por mais tempo ali, ainda que as possibilidades de leitura acabassem. Viu-se animado ao perceber que estava na casa de outro escritor, uma feliz coincidência. Notou que o jovem escritor, como ele, havia começado pelos clássicos e, como ele no passado, não conseguia organizar as próprias ideias. Com espanto, percebeu o quanto se parecia com aquela pessoa: tentando recuperar o tempo perdido e estar à altura dos grandes nomes da literatura, mesmo que faltando tempo para ler e escrever. Ao perceber que o amigo sofria de um severo bloqueio criativo, o escritor primordial teve um esclarecimento e, durante o mais pesado sono do companheiro, despejou as melhores ideias dos últimos quatro anos em seu ouvido. No dia seguinte, viu a alegria do escritor secundário, que começou a escrever de modo frenético. E assim os meses foram se passando. O escritor secundário tinha sonhos incríveis, acordava com sentenças inteiras em sua mente e parecia ouvir um longo sermão toda vez que mudava grandes trechos ou escolhia as palavras erradas. Não demorou muito para ser reconhecido e ganhar diversos prêmios. Os mais variados críticos diziam que ele tinha as influências mais variadas e que, claro, havia lido muito. O escritor secundário não desmentia nada disso, aproveitava que tinha, como nunca, uma fonte inesgotável de ideias. O sucesso perdurou até que o escritor primordial foi encontrado enquanto lia Raduan Nassar. Ele tentou ajoelhar, rogar por misericórdia, explicar quem era e de onde vinha, contar as próximas ideias e tudo o que iriam alcançar juntos caso o escritor secundário o deixasse criar. Apesar dos pedidos, o outro nada ouviu, arregalou os olhos e exclamou a sua sentença: — Credo, que traça gigante! E, não tendo nenhum outro aparato próximo, fechou o livro com violência, matando o escritor primordial esmagado entre as páginas. Quando voltou a abrir o livro, o corpo imenso caiu em cima do móvel, deixando um rastro alaranjado nas folhas, que grifava algumas palavras. O escritor secundário achou nojento, a princípio, depois admitiu que os restos mortais da traça tinham deixado o trecho marcado ainda mais poético: “longe de suspeitar que percebido assim eu acabava de receber mais uma graça: liberado na loucura, eu que só estava a meio caminho da lúcida escuridão”. Após alguns dias de frustração, passeando novamente pelas lombadas em busca de algo que pudesse inspirá-lo, o escritor secundário sentiu o estômago roncando. Pela primeira vez, olhou para os livros com uma gula exponencial. De repente, uma ideia surreal lhe passou pela cabeça, como vinda daqueles sonhos agora já distantes, um que quase havia se esquecido. Uma voz interior e antiga pareceu lhe perguntar: o que acha de experimentar um livro?



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