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Conto "Esqueci de dizer o meu nome", livro "Isolamento" 2020

Atualizado: 21 de jul. de 2023


Leia abaixo o meu conto publicado na antologia "Isolamento" (Ed. Caos e Letras, 2020), organizada por Nelson de Oliveira, Eduardo Sabino e Marne Lúcio Guedes.


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Esqueci de dizer o meu nome


Abro os olhos. Minha mulher repousa no sofá ao lado, mas escuta meus movimentos atrapalhados e acorda também. Ela brinca com os outros que voltou a desenvolver os chamados "ouvidos sensíveis", igual à época em que era capaz de acordar de seu sono mais profundo ao escutar nossos filhos resmungando no berço. Então, ela pergunta se estou com fome. Respondo balançando a cabeça em uma afirmativa um pouco torta e termino o movimento desastroso de levantar com a intenção de ir ao banheiro. Ando um pouco e sinto a perna fisgar. Devo ter feito cara de dor, porque logo ela pergunta onde está doendo.

"Belé-bilu", respondo, olhando para a panturrilha, já que é difícil fazer meu dedo se esticar na direção pretendida. “Na perna?”, ela questiona, tocando a coxa. "Hum, hum, belé-bilu-bilu", torno a dizer. Ela toca o local correto, sabe que é ali que dói pela expressão que faço, e aplica um relaxante muscular. De alguma forma, minha esposa ainda me entende. Quando isso acontece, sei que ainda há amor entre nós, ou alguma variação dele.

Ultimamente, minha mulher fica tagarelando sobre como sua nora não está dando a atenção que deve à educação da neta na quarentena. Apesar de não poder dar uma resposta concreta em relação ao assunto, ela não pergunta o que eu acho sobre o assunto, porque sabe que discordo. Minha nora faz o possível; não dá mesmo para trabalhar e ficar o dia todo de olho nas aulas virtuais da menina. É preciso fazer vistas grossas para algumas coisas.

Apesar de discordar e de não conseguir opinar, escuto minha mulher mesmo assim. Ultimamente, é só o que faço. Escuto ela falando, os meus netos brincando, os pássaros cantando e o chiado do rádio. Escuto chamarem meu nome, mas demoro para entender que aquele é o meu nome, então tardo em responder: "Seu , vai ver a , por favor?". Tento mastigar as palavras que ouvi, tento retê-las em minha mente. Mas, tão logo as escuto, transformam-se em uma lembrança distante. O nome já não evoca sentimento algum. "Pai?". Então, reajo. A palavra "pai" me diz alguma coisa. Eu posso ver a representação da palavra "pai" em minha mente, assim como vejo a palavra "maçã". Mas o nome... O nome é vácuo.

"Pai, pode ver sua neta, por favor?", meu filho reformula a frase, como se mostrasse na minha frente o passo a passo de sua mágica. É inútil, em seguida eu já não lembro qual foi a magia que me espantou. Faço o meu sinal estranho em forma de sim e começo a me movimentar, feliz em ser útil. Meu filho foi o primeiro a perceber meu problema. Ele sempre me chamou pelo nome, assim como chama os próprios filhos. Eu não, sempre tratei as pessoas da minha família pelo grau de parentesco. Só nunca poderia imaginar que meu próprio nome me soaria estranho — parece-me que ele ficou escondido em algum ponto e que não sei como procurá-lo. Então deixo-o perdido para que outras pessoas o resgatem e o retenham. É preciso fazer vistas grossas para algumas coisas, como o fato de ter perdido o próprio nome.

Descobri que é muito melhor perder o nome do que perder-se por completo. No entanto, ainda me reprimo. As palavras que saem não são aquelas que gostaria de dizer, mas são as palavras possíveis. Meus movimentos também são os possíveis, embora não me deixem mais caminhar por aí como antes. Temem pelos espasmos e passos imprecisos. Minha família fica imaginando o que aconteceria se eu caísse no chão de uma rua qualquer. Não saberia dizer onde moro ou quem sou. Eles têm razão. Então, obedeço.

Agora escuto minha esposa reclamar de não poder sair durante a quarentena, que não pode mais conversar pessoalmente com as netas e o filho. Tenho vontade de lhe dar as boas-vindas ao meu mundo, porém, não digo, e não só porque ela não me entenderia, mas porque é algo ruim de se dizer. É doloroso o mundo em que vivo, ninguém deveria habitá-lo. Minha mulher ainda se esforça, liga pelo celular, mostra as crianças para mim. "Vovô", elas dizem e eu sorrio. "Belé-bilu, bilu-belé", vovô responde. Elas já não riem mais. Colocam as mãozinhas ao redor dos braços fazendo um gesto de abraço, e tenho vontade de chorar por não conseguir dizer que as amo.

Meu filho diria que elas sabem, que não são necessárias palavras. É o mesmo que diz agora para a avó: “não são necessários abraços para elas saberem que as ama”. Mas qualquer impossibilidade de expressão humana é uma corda que nos mantém amarrados. As palavras e o corpo é que fazem a comunicação ser inteira. Eu sei, porque não posso mais falar ou gesticular. Então, entendo o desespero de minha mulher quando ela sente que não consegue se expressar plenamente. Se não há o toque e a expressão que fazem narizes e lábios, agora cobertos por uma máscara, é como se a palavra não alcançasse a pessoa da maneira como deveria. Mas, ainda assim, ela tem a palavra. E, quando está em casa comigo durante a quarentena, ela tem o corpo e a palavra. Eu não tenho mais nada disso por inteiro, não tenho nem o meu nome.

Às vezes fico pensando por que é que a palavra sumiu da língua e de que forma ela fica rebatendo dentro da minha cabeça sem conseguir sair. Pego o jornal que assino e que continua a chegar sempre. Encaro-o como um analfabeto. Apenas com minhas netas não tenho medo de falar ou tentar, ainda que "belé" e "bilu" sejam as duas únicas palavras possíveis. Elas não carregam dó no olhar, pelo contrário: tentam me decifrar. A mais nova vive apontando para si enquanto fala: "Bilu". Depois, aponta para a mais velha e fala: "Belé". Aponta para a avó e diz: “Bilu-bilu". Por fim, aponta para mim. No entanto, há um número limitado de variações que duas palavras podem ter.

Meu filho gostaria que eu me esforçasse mais. Ele quer que eu volte com as sessões de fonoaudiologia, fisioterapia e essas idiotices. Tudo foi momentaneamente adiado na quarentena, o que minha esposa odiou. Acontece que, quando as profissionais vinham, minha mulher podia sair e se ver livre da obrigação de cuidar do marido inválido por uma ou duas horas durante a semana. Agora, com a pandemia, ela se sente ainda mais presa a mim. Se houvesse como, eu mesmo a obrigaria a me largar por uns dias, a me deixar livre de seus "ouvidos sensíveis".

É por isso que me estresso com ela e às vezes respondo um "belé-bilu" bem dado e dito. Ela reage com um tapinha na minha mão e me chama de ingrato, como se fosse minha mãe. É culpa minha. Tantos anos reclamando que a janta ainda não estava pronta e que ela gastava muito dinheiro no mercado. Tantos anos fazendo com que a responsabilidade dos "ouvidos sensíveis" fosse apenas dela e obrigando-a a ocupar um papel que não era o de uma parceira — papel que agora ela ocupa com tanta primazia e comprometimento, certa de que é o correto a se fazer, que é o que eu preferiria. Não é. Ninguém deseja ter sessenta e dois anos e ser cuidado por uma mãe que é também a esposa.

Então, quando tenho um breve momento de solidão, tento sustê-lo. Hoje mesmo, neste exato momento, estranho sua longa ausência, mas demoro para sair do sofá. Quero aproveitar a paz, então começo a procurá-la pela casa apenas após um tempo. Tremo quando a vejo deitada sobre o chão do quintal. Pergunto-me se é um simples desmaio, se está morta ou, pior, se acaba de ter a mesma coisa que tive. Tento agachar até ela e verificar se está respirando. Tento movê-la dali, mas sou fraco e meus braços, mãos e pernas não respondem como gostaria. Tenho medo de derrubá-la no caminho até o sofá e de machucá-la ainda mais.

Desesperado, caminho até a cômoda do meu quarto e agarro uma máscara. Deixo-a cair uma, duas, três, cinco vezes antes de conseguir colocá-la mais ou menos bem em meu rosto. Depois, pego a bengala ao lado da cama com a minha mão esquerda, que passou a ser a dominante desde o AVC. Por último, persigo as chaves. Tento encaixar a chave no buraco da fechadura, mas a tarefa leva mais tempo do que eu gostaria. Feito isso, caminho até a casa do meu filho sob o olhar de pessoas que estranham o fato de um senhor debilitado como eu estar andando sozinho por aí em tempos de pandemia. No caminho, que é o de duas quadras para baixo, os mais medonhos pensamentos sobre minha mulher me assombram e sinto-me impotente, preso em uma quarentena com suas próprias regras.

Ao alcançar o sobrado salmão, estico a mão para tocar a campainha, mas não alcanço o botão pelo portão estreito, então começo a gritar: "Belé-bilu, belé-bilu, belé-bilu!". Quem aparece na janela é a minha neta, ela abre um sorriso e anuncia dentro de casa: "Papai, o vovô veio nos visitar!". Escuto alguém descendo as escadas correndo. É meu filho, que logo aparece e me olha com semblante de bronca.

"Belé-bilu!", tento soar o mais preocupado possível, "Belé-bilu!". Ele me olha sem entender: "O que é isso, pai? O que você veio fazer aqui sozinho? Pai, o senhor não pode sair de casa assim. Cadê a mãe?". Suspiro: "Belé-bilu! Bilu-bilu, bilu-bilu!". Ele diz que não entende e grito: "Bilu-bilu, bilu-bilu!". Por fim, escuto uma voz fina e preocupada: "Papai, tem algo de errado com a vovó". É ela, a caçula da família, ela entendeu tudo. "Bilu-bilu! Bilu-bilu!", respondo, feliz.

Meu filho finalmente entende. Pede para a filha ficar com a mãe, coloca a máscara e me acompanha de volta. Ao chegar, se assusta ao ver a mãe no chão, leva-a para o sofá e liga para a ambulância enquanto tenta fazê-la acordar. Em pouco tempo, ela desperta. Parece que foi só um desmaio, o que me alivia muitíssimo. Logo o meu filho relata à minha mulher como eu fui capaz de avisá-lo. Ele sorri com os olhos, porque a máscara encobre a boca. Por causa dessa comunicação pela metade, demoro a entender que eles estão renovando as esperanças em mim.

Depois que tudo se acalma, prometem me deixar dar algumas caminhadas sozinho quando a pandemia passar. Pela primeira vez, fico ansioso para que ela acabe de vez. Sabendo que fui capaz de pegar a máscara, as chaves e a bengala, além de fazer o caminho até a casa e lembrar o novo nome designado pela neta para a avó, meu filho me olha surpreso, como se eu pudesse ainda ser o mesmo ou como se restasse mais de mim do que ele imaginava. Ele não sabe que esqueci de dizer o meu novo nome, porque o nome decidiu ir embora de novo. Mas deixo estar, é preciso fazer vistas grossas para algumas coisas. É preciso existir para além dos nomes e comunicações incompletas.


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