O homem atrás da porta – 8º lugar no Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2017

Após a divulgação do resultado do prêmio e chegada da antologia com os primeiros colocados no Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2017, chegou a hora de postar aqui o meu conto vencedor do 8º lugar!



O homem atrás da porta


Não sei muito bem como aconteceu. Tudo era perfeito até que um dia acordei e meu dedinho da mão havia sumido. Era como se não estivesse mais lá. Eu podia pegar coisas e mexer nele, porém não mais o senti novamente. Em fato, não achei muito problema nisso, pouco me atrapalharia a falta de um dedo mísero. Dizia a mim que eu era um homem forte por saber lidar bem com algo do tipo, um dedinho sumido.


A esta altura de minha vida já tinha casa própria e não havia a quem ligar correndo para contar aquele estranho caso. Sempre fui muito orgulhoso da minha  rotina e de como trabalhei para chegar ali. Fui um professor excepcional. Na sala de aula, todos sabiam o quanto eu era exímio. Lógico que às vezes exagerava, bebia e fumava demais. Pensei que a falta do dedinho poderia ser algum colapso causado por esses pequenos estresses. No fim, apesar do dedo, fiquei quieto e esperei passar. Era um homem estudado e não poderia aparentar insanidade. Comecei a usar uma luva para ir ao trabalho. Dizia aos meus estudantes que descobri ter alergia à giz.


Estava incomodado. Costumava ser o homem que ficava na frente de todos para me certificar de que eu era supremo ali. No dia do dedo, uma aluna me olhou parecendo não estar muito convencida e riu sem motivo aparente. Era a segunda vez naquela semana. Na primeira, quando eu ainda tinha o dedinho, ela sorriu ao perceber a minha mania de não conseguir dar aula de porta aberta.


Nessa época tinha muitas mulheres, mas nunca liguei para as alunas. Do contrário, conversava com diversas pessoas e era muito popular. Obviamente não iria reclamar de ter uma companheira ou algum bom amigo para ligar a qualquer hora e tomar uma cerveja quando estivesse triste. Mas eu sempre estava bem, magnífico. Prazer, fui o homem imbatível…


No dia seguinte, acordei e olhei se estava tudo certo. Apenas o pequeno dedo não aparecia. Meu pijama era de mangas compridas, pois fazia muito frio naquela semana. Ainda com sono eu o tirei para tomar banho e, enquanto a água corria sobre mim, notei que não sentia ela escorrer em meu braço. Mais uma parte havia sumido. Desesperei-me. Não porque fosse exatamente um problema, pois era possível ocultá-lo pela roupa, mas porque cada vez menos parecia uma alucinação. E o mais estranho era ver a mão, visível, sem o dedinho e com braço invisível também. Todos os dias,entrava em casa desesperado porque sabia que o amanhã iria chegar e imaginava qual parte do corpo haveria de sumir.


Às vezes eram partes próximas, como a mão e o dedo. Às vezes partes distantes, como o pé e a orelha. A outra mão não envolveu grandes questões, foi só dizer que ela também tinha sido ocupada pela alergia. Apesar do sumiço e de não ser capaz mais de sentir, eu ainda tinha coordenação e podia movimentar os objetos como antes. Tal fato, não atrapalhava minha eficácia e brilhantismo, dizia a mim. No entanto, a orelha me tirou o cargo de professor mais respeitado, colocando-me no de palhaço quando apareci dando aula com um gorro gigante.


Então pensei em um emprego no qual teria de trabalhar com roupas mais quentes. Sempre quis ser um pintor, um artista, mas disseram-me que era coisa de gente louca, fracassada. No fim, fui parar em um frigorífico, sem contar a ninguém sobre o ocorrido.


Todos os dias um novo membro sumia ou apenas uma parte dele ia embora. Logo, eu estava usando também um cachecol. As pessoas me viam na rua e achavam que eu era um louco naquele calor de 30 graus. Nunca haviam me achado louco. Eu era um homem sério. Porém, fora isso, nada era sufocante ao extremo, afinal eu não sentia temperatura, muito menos o toque das pessoas. Meu corpo já estava quase que completamente invisível.


Um dia, uma vizinha veio até o meu apartamento. Fazia mais de um mês que eu não convidava ninguém e ela chegou de supetão. Sabia que Luana teria de ir embora, pois me restava apenas a face. Porém, imaginei que poderia deixá-la beber um vinho em troca de alguns beijos. Talvez isso ainda me desse o prazer que a bebida já não dava, porque as toxinas não mais ficavam em meu corpo. Beijei-a muito naquela noite.


Procurei imensamente pelo calor daquele contato. Não foi bom e nem ruim. Foi uma mistura de um tanto faz com um quase pouco, e mais uma pitada de algo com um quê de agradável, para não dizer insuportável. Mandei-a embora quando ela avançou para outras áreas. Ela saiu batendo a porta e fazendo muito barulho. Nunca havia lhe recusado.


Quanto mais eu fazia, mais o buraco era maior e mais eu desaparecia. O que aconteceria quando eu sumisse por inteiro? Naquela noite, dormi abraçado no travesseiro apesar de só poder senti-lo em meu rosto. No dia seguinte, a minha boca havia sumido. Pensei em ligar para o frigorífico e dizer que não poderia ir mais, que estava me demitindo. Só então percebi que estava mudo. Pelo menos pensei que não precisaria de dinheiro já que não havia mais como comer.


“Vou morrer”, eu disse enquanto me olhava no espelho. O cachecol, luvas, sapatos, meias; tudo cobrindo o corpo e aquele pedaço do nariz para baixo. Pensei que as narinas seriam as próximas, ou os olhos. Será que precisaria respirar? Havia mais de quatro dias que não comia e não tinha sentido mudança alguma. Também não dormia mais. Apenas fechava os olhos e ficava assim até o dia raiar para parecer que eu ainda era um ser humano normal. Sempre quis ser alguém dentro dos padrões, que se adaptasse bem ao mundo. Quando o dia surgiu e vi a luz, olhei de maneira vesga para o nada embaixo dos meus olhos. Era isso; o fim. O nariz não estava mais lá. Não sentia o ar entrar ou sair. Porém, nada aconteceu e eu ainda vivia.


Corri ao espelho. Era uma imagem macabra de um homem todo coberto. Tinha apenas os olhos no rosto. Notei que uma pessoa tão bizarra assim não teria mais porque se esconder sobre uma pele falsa de roupas de marcas. Cuidadosa e dolorosamente, comecei a despir-me. Chorei pela primeira e última vez naquele dia. E conforme tirava os sapatos, as meias, a calça, a blusa, o cachecol e o gorro, pensava o quanto me desejava por inteiro. Não que fosse novidade. Na minha vida toda eu me queria inteiro, mas pela primeira vez eu não conseguiria fazer nada que suprisse momentaneamente essa vontade.


Quando olhei no espelho, era uma face com olhos e apenas isso. O cabelo também já havia ido embora. Nada mais existia do queixo para baixo. Em uma última tentativa de felicidade, procurei as belas fotos que tirei nas viagens a trabalho. Porém, o tempo foi curto. Antes mesmo de notar que aquilo não era o desejado a ser visto, percebi que meus olhos começavam a sumir. Em seguida, fiquei cego. Tudo era um grande espaço preto, mas eu ainda existia nele. E, o pior, eu sabia que ainda existia mas não poderia sentir isso.

Deitei, sabe-se lá onde, e implorei que passasse logo. Então, uma figura apareceu e na mesma hora percebi que era a morte. Por um motivo que não sei explicar, a gente sabe reconhecer a morte quando a vê, muito mais do que sabemos reconhecer a vida.


— Olá, Carlos — a morte disse sombria. — Veio me buscar? — Não. Estive olhando o seu currículo, um belo currículo, e o senhor me parece a pessoa ideal para seguir com o meu posto. Morreu faz tempo, pessoas assim se sentem mais confortáveis no cargo. — Está falando que eu sou bom para ocupar o cargo de morte? — Senti o sangue na minha veia gelar. — Sim. Encare como a promoção que nunca teve no trabalho. Tenho aqui em meus históricos que você nunca se importou com nada que… O senhor sabe. — Está dizendo que não tenho sentimentos? — Está aqui que nunca os procurou de verdade — a morte respondeu. — Claro que os procurei, o tempo todos eu os queria. — Você estava se procurando ou usando os outros para achar o que desejava em alguém? — Providenciava já que não encontrava — revidei. — Não, Carlos. Na verdade, você desistiu de si há muito tempo. Perdeu tudo. — Não quero ser a nova cara da morte. Certamente ainda me resta algo… Ainda vivo, certo? — Por que você acha que vive? — A morte questionou, provocando arrepios. — Pode um homem morto morrer? — Indaguei triste. — Certamente. — Então pode um homem morto voltar a viver. Dê-me uma chance de ser este homem.

A morte encarou-me. Sabia que ela estava pensando e, talvez, até se divertindo. Sua sentença foi simples, direta, como um aviso:

— Então pare de ficar atrás da porta e entre, homem invisível. A vida deve ser plenamente vivida por quem você é e não por aquilo que representa. Só morre aquele que vive.

4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo